quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sempre um passo atrás na educação

Terry Gou é um empresário asiático de sucesso. É o figurão da Foxconn, empresa de quinquilharias eletrônicas (leia-se IPad) a quem o governo brasileiro está solenemente estendendo o tapete, para que ele traga uma de suas fábricas – de quinquilharias, obviamente – para cá.
A sedução do Sr. Gou sobre nosso politburo de alto escalão foi tamanha que até já se criou uma categoria tributária especial para que seus produtos tenham tratamento diferenciado, com impostos muito reduzidos. Duvido que a Foxconn tenha obtido uma mamata assim em outros países.
Tudo bem, o Sr. Gou vai gerar alguns empregos para nossa patuleia braçal, os tais brasileiros sobre quem ele se referiu assim, em recente entrevista ao The Wall Street Journal: "O salário dos trabalhadores brasileiros é muito alto. Mas os brasileiros, assim que escutam a palavra ‘futebol’, param de trabalhar. E tem ainda as danças. É uma loucura." Ou seja, somos tribais, na opinião dele.
O Sr. Gou está no seu papel, é claro, de empresário que paga 1 dólar por dia ao trabalhador chinês, daí seu espanto com nossos “altos salários”. O negócio dele é apenas faturar; seu comportamento, portanto, é bastante coerente com seus propósitos.
Pois é para gente assim que os aparatchik nacionais abrem as portas. Por trás de eventuais interesses escusos, que não me cabe aqui julgar nem mesmo comentar, sempre há o discurso da geração de renda, de impostos, de desenvolvimento nacional, blablablá! O mesmo fastidioso discurso de sempre, mas inevitavelmente grandiloquente nos parágrafos do “nunca antes na história deste país”.
Embora sofisticadamente (fabricar IPads não é pra qualquer um, uai), voltamos à década de 50, quando se dizia que desenvolvimento era abrir fábricas de automóveis e de... quinquilharias-gerais da nação! Voltamos a 1500, quando nós, tupinambás pelados, nos deixávamos maravilhar por espelhinhos, continhas coloridas e demais quinquilharias! trazidos por Cabral et. al.
Lá no mundo desenvolvido, no entanto, ninguém está tão interessado assim em abrir ou manter fábricas (exceto, talvez, o Michael Moore); lá, o investimento prioritário é em cérebros. Isso mesmo, cérebros para todos os fins. O produto mais valorizado nas prateleiras dos supermercados do desenvolvimento são cérebros, de todas as origens, voltados a todos os campos do conhecimento.
E cérebros são produzidos em escolas, não em fábricas de quinquilharias!
Os valores são invertidos: quinquilharias devem estar a serviços dos cérebros, não os cérebros a serviço das quinquilharias, como quer nosso governo.
Escolas... No plano da educação, no entanto, enquanto o discurso do MEC é dizer em livro didático que o bonito é falar errado, não se ouve falar em incentivo ao professor, em profunda revisão dos currículos escolares, em financiamento a sistemas de inteligência para fins didáticos, em verdadeiro incentivo à produção de novos e avançados materiais didáticos.
Ainda estamos, lamentavelmente, sonhando com computadores banais em sala de aula. Ainda nos esforçamos demais – brava gente brasileira – para conseguir um mínimo de inclusão digital para um percentual irrisório de estudantes.
E quando a gente vê um vídeo como o que está aí embaixo, onde a quinquilharia está a serviço do cérebro, e lembra que o Brasil está mais para Terry Gou do que para professores, que está mais para trazer fabriquetas do que para expandir cérebros e dar-lhes todo apoio em favor de novos sistemas e ferramentas educacionais, dá uma tristeza grande lá no fundo da alma.